quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Destempero

Escutem:
eu não sou tão mansa como sugere meu sorriso!
não sou delicada como faz supor minha miudez!
Eu destempero,
enlouqueço,
transbordo,
estou sempre à beira da combustão.

Saiam de perto.
Eu não sou elegante.
Faço gestos obscenos e digo palavras tortas.
Sou perigosa bomba,
basta apertar um botão.

Não saiam de perto os que forem meus amigos
os que sabem que meu destempero lava mágoas
e permite que eu não me afogue
em tristeza,
em decepção.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sobre política e coração

Disseram:
- Para fazer política é preciso trancar o coração.
Ele acreditou.
E fez grande sua carreira.
Tornou-se arquiteto de discursos,
exímio articulador,
malabarista de alianças,
formulador de estratégias.
Foi ao topo.
Galgou o poder.
E, quando lá chegou,
seu coração,
trancado,
esquecera os sonhos.
E, no caminho,
seu coração,
trancado,
já não conseguia distinguir as verdades nos outros corações.
Ele perdeu-se de si.
Fez política, sim.
Em vão.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O mar


O mar é parte de sua vida, desde sempre.
Quando criança, fingia-se sereia.
Prendia a respiração,
mergulhava o mais fundo que podia,
e deixava o som das águas criar uma cantiga em seu coração.
Sua mãe tinha medo.
Sonhara,
um dia,
que a menina era tragada pelas ondas,
levada para o azul sem fim.

O mar foi entrando em sua vida, desde sempre.
Na solidão de adolescente,
buscava nas ondas namorados que não tinha,
caminhava sozinha,
enterrando os pés na areia,
a contar segredos ao mar.
E enquanto a mãe reclamava
os sumiços da moça na beira da praia,
enquanto a mãe chorava ausências
a relembrar sonhos antigos,
a velha cantiga crescia na alma da jovem.

O mar tomou-lhe a vida,
como afogamento ou naufrágio.
Mas foi um sonho bonito de se ver...
Ele invadiu aos poucos os sonhos da moça.
E ela fez-se mulher-azul,
mulher-sereia,
imensa de mar.
Vez por outra, transbordava pelos olhos,
em lágrimas desavisadas,
que vinham sem porquês.

Mas, então,
a cidade cresceu à sua volta
e puseram pedras na praia
para que seu mar não derrubasse prédios ao redor.

Hoje,
a tempestade já não avança além das cercas,
mas escorre pelos subterrâneos
enchendo a mulher de um azul sem fim.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tempos do tempo

Esqueço as vezes que o tempo correu.
Sou besta como criança
e ando na corda bamba, como adolescente...

A vida faz questão de me lembrar de esquecer...
que o tempo correu.
Coloca em meu caminho pedaços renovados de mim.

Vejo espelhos à minha volta que subvertem o tempo
e me oferecem jovens nos quais me reconheço,
alguns anos atrás.
E com eles converso como se tempo não houvera entre nós.

Tenho pessoas à minha volta que subvertem o tempo
e guardam juventude e infância no coração de quase meio século.
E rio com as brincadeiras de meu compadre.
E me enfureço com a instabilidade adolescente de meu amado.
E vejo que, para eles, o ponteiro do relógio deixou de rodar

Por isso,
faço questão de esquecer que o tempo corre.
Por que há,
em cada tempo,
todos os tempos.

E eu sou assim, criança-jovem-e-velha
neste dia em que completo mais um ano de passagem:
16 de outubro

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sonho semente

A menina esqueceu um pedaço de sonho no quintal.
Sonho de infância.
Destes rechonchudos e recheados.
Com cheiro de festa e sabor de chocolate.
Colorido, com todas as cores do mundo e de fora do mundo.

A menina cresceu,
cada dia um pouquinho.
E uma semente germinou.
Fez-se árvore grande,
imensa,
a empurrar as outras,
derrubar os muros da casa,
deitar raízes sob os alicerces das construções.
Era preciso derrubá-la.
Ou ela destruiria tudo.

A moça agarrou-se ao tronco.
Mas removeram-na de lá.
Ela, então, teve uma idéia:
subiu o mais alto que pôde,
se alimentou das frutas que ninguém via.
Depois desceu, e deixou que derrubassem a planta grande.
Abriria os braços e elevaria os olhos ao céu
para que sua árvore dos sonhos crescesse imensa dentro de si.

Tela de Berta Andrade Malhinha

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tragada pelas horas


O tempo nos talha,
atropela,
atrapalha.

trabalho trabalho trabalho
trabalho trabalho trabalho

durante estes dias de silêncio,
meus dedos viram teclas,
autômatos,
e emparedaram as palavras vivas em meu peito.

O tempo virou relógio:
seus ponteiros eram flechas
apontados para o que era verbo em mim

e os dias passaram como avalanche,
fui tragada por uma rotina de letras murchas.

Estou de volta, finalmente.
Tenho, novamente, as rédeas de meu tempo.

PS: Minha pequena Anaís agora também tem blog.
Acessem: meussegredosanais.blogspot.com

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Vaso de cristal

Um dia,
quebrei o vaso de cristal de minha mãe.
Erro fatal.
Travessura sem perdão.
Eu era adolescente ainda.
Embora soubesse que cometera um deslize,
não sabia a dimensão de meu tropeço.

Fugi de seus gritos.
Fugi de mim mesma.
Fugi.
Não podia vê-la desabar seu desespero sobre mim.
É que era minha mãe, ela própria, aquele vaso de cristal.

Ninguém diria que por trás daquela mulher independente,
segura,
dona de si mesma,
havia uma menina com sonhos de princesa em seu castelo.
Eu, então, também não sabia.

Então punha os pés sujos sobre o sofá.
Deixava marcas na porta de vidro.
E desfazia em bagunças a casa habitada por sonhos de cristal.

Havia uma saleta de sombras,
janelas e cortinas cerradas.
(Para não queimar os quadros - ela dizia)
Aquele espaço, desabitado, reservava-se a visitas.
Que nunca vinham.
E o carrinho de finos licores envelhecia,
esperando ilustres convidados,
para festas de ilusão.

Um dia,
não sei exatamente quando,
minha mãe decidiu acordar.
Ela não juntou os cacos do vaso quebrado.
Tampouco o substituiu.
(Vasos de cristal não se colam, nem substituem)
Minha mãe acendeu as luzes da saleta.
Abriu as janelas.
Olhou a vida lá fora.
Depois deixou o castelo,
e viu que o mundo de verdade também pode ser bom.